21 de mai de 2011

O Velho

“Está chovendo fogo, as ruas estão queimando, todo mundo assistindo a gente desmilinguindo, nosso sangue derretendo junto com o mundo que vai se acabando...”
(Nassira e Najaf – Karina Buhr)

      “É complicado”, disse o velho, aquele velho, ao meu lado no balcão do boteco. “Porque viver, meu rapaz, não basta. Viver e cumprir as obrigações, não basta. Trabalho, família e lazer, lazer sim – lazer, também deveria ser uma obrigação do homem, você não concorda, hã? –, enfim, essas coisas deveriam, deveriam, bastar para um homem viver tranqüilo, sossegado, feliz, mas não são suficientes ao que parece. Como se não bastasse, o cara me resolve colocar uma tal de imprevisibilidade na jogada. Se você jogasse pôquer, ou qualquer jogo de azar, saberia. Não que você não saiba, pode até ser que jogue pôquer, afinal você me parece ser vivido, ter estudo, viagem, coisa e tal, mas é que uma compreensão desse tipo só quem já viveu muito, muito mesmo, pode ter.”
      Eu não me lembro exatamente o que o velho disse depois, só sei que foi nessa mesma linha de raciocínio. Não me lembro porque o meu café chegou naquele instante e eu preferi me concentrar nele para ver se o falastrão arranjava outra pessoa pra descarregar suas palavras. Mas não teve jeito, era eu mesmo quem ele queria pra ouvinte e também não liguei muito de dar uns 5 ou 10 minutos de atenção pro coroa. Quem sabe eu não “aprendia” algo? Voltei a encará-lo sem demonstrar muito interesse, porque esse tipo de gente, se você se mostrar interessado pelo papo, já vai logo colocando a mão no ombro como se fosse um amigo de muitos anos, e ele continuou a ladainha.
      O velho era uma dessas figuras que freqüentam boteco pé sujo só pra arrotar filosofia e paquerar qualquer menina com menos de 20 que passe pela calçada ou resolva entrar no bar pra comprar um cigarro, cerveja barata ou pedir informação. No tempo em que fiquei tomando meu café no balcão engordurado, ele mexeu com umas 5 meninas que passaram e mais 3 que entraram no bar, sem contar a que pediu pra usar o banheiro e ele cercou citando um soneto de tom erótico que, provavelmente, foi ele mesmo que escreveu. Essa, apesar do rosto de 15, parecia ter uns 25, dada a desenvoltura com que se livrou do velhote. Eu, cá comigo, ri e senti pena.
      “Imprevisibilidade! Não disse? Quem diria que essa fofinha ia me resistir?” Dito isso, deixei de sentir pena e me interessei mais pelo velho. Isso sim é que é autoestima, pensei. Fiquei esperando mais uma sessão filosófica, mas ele se limitou a olhar o céu além dos fios elétricos, o céu azul do outono, suspirando profundamente como uma criança experimentando o ar pela primeira vez. Ficou assim um bom tempo e eu esperei. Já tinha terminado meu café, mas esperei. Algo me dizia que depois daquele momento dele, só dele, suas palavras viriam, sei lá, autênticas, e não aquela papagaiada filosófica. Fiquei tão atento ao velho, às expressões manifestas do seu pensamento, que não percebi o menino que me pedia um trocado, meu telefone tocando, nem nada, e teria ficado ali, mapeando aquelas rugas, se o próprio ancião não tivesse me encarado nos olhos com um sorrisinho sarcástico enquanto pousava sem reservas a mão no meu ombro dizendo: “Parece que vai chover. Fogo. Vai chover fogo... Mas quem diria isso se o céu está tão azul?”
      Acordei e voltei a vê-lo como antes, mesmo que agora tivesse um ar diferente, meio profético, de sábio que antevê os movimentos da natureza ao mais leve revoar de pássaros. Ele, por outro lado, não me deu mais atenção e se voltou a conversar com outros que estavam no bar. Velho estranho, pensei.
      Essas coisas são incômodas. Por isso que tenho a máxima cautela quando entro em lugares com tipos assim. Jamais saio de casa sem o meu MP3 que me justifica e salva de situações como essa. Bancos, botecos, filas de supermercado, abrigam gente que vive de cativar os outros com suas histórias absurdas, incomuns; gente de olhar distante, que abriga pensamentos tortos como o daquele velho que encontrei. Essa gente está em todo lado, em todos os lugares que se possa imaginar, e se multiplicam como qualquer coisa que tem o dom de se multiplicar. E, se a gente não fica esperto, pode acabar sendo absorvido pelas palavras sedutoras que camuflam suas verdadeiras histórias, e, pior, pode acabar olhando um céu azul de outono e imaginar uma chuva de fogo consumindo o mundo. Saravá!




14 de mai de 2011

Margaridinha

Boto fé na margaridinha. Perdão às rosas pela preferência desses meus olhos, mais tendentes ao simples, comum, corriqueiro. Embora eu aprecie a voluptuosidade sanguínea que tinge a pele delicada das rosas e tenha até certo gosto em ficar observando a penugensinha que recobre a superfície dessa cor tão viva, prefiro mesmo as cotidianas margaridinhas.
Diz aí, meu amigo, se você nunca ficou tentado  a colher uma dessas pequenas maravilhas do jardim alheio? Se ainda não fez, é bem possível que um dia faça e alardeie o fato contando em detalhes para os amigos de boteco as pequenas interjeições e nomes esdrúxulos que a sua criatividade seja capaz de criar. Digo isso por experiência própria.
Veja só o meu caso. Já tive um affaire por rosas. Durante muito tempo, tentei imortalizar a beleza aveludada, erudita, que habita o botão em flor. Fui um tolo por agasalhar esperanças a cada olhar perscrutante e sedento do belo. Talvez, ainda hoje, estivesse morto ou agonizante não fosse bater o olho no borogodó inexplicável de uma margaridinha. Mas minha relação de amor por essa flor miúda só se completou quando tangenciei seu tronco delicado com meus dedos imberbes, quando senti seu corpo intumescido pelas palavras que sussurrei ao encostar meus lábios na sua pele branca.
Não tem jeito, amigo, só vai sentir o perfume quem arrancá-la do chão e levar pra dançar. Faço votos, a quem se atreva, que seja uma solta no campo – fato de certa forma raro –, sem antecedentes comprometedores ou cônjuges ciumentos. E nem pense que está acima de cair nas armadilhas infantis, mas, admita, magistralmente armadas por elas. Mesmo que você tenha lá o seu talento, largue de lado o orgulho, a prepotência, e fique esperto, fique esperto. Deixe esse negócio de troca-troca pros grandes, do calibre de um Sabino, Braga, Mendes Campos.
Boto fé, hermano, que você encontre, como eu encontrei, uma margaridinha solitária que corresponda o seu olhar desejante, e que você saiba eternizá-la na sua fragilidade cotidiana, nem que seja através dos esdrúxulos, mas deliciosos nomes que nos acometem; nomes que para os ouvidos alheios podem parecer libidinosos e traidores, mas que você saberá tratar-se de pequenos momentos vividos a dois, mesmo que capturados das vidas de outros, e eternizados, meu camarada, pela sua criatividade audaz. Pitanga preta, Chu, Zão, Foquinha, Zig, Borboleta, e tantos outros que porventura possam surgir desse inevitável encontro.     
Uma margaridinha, descomprometida, colhida ainda fresca de manhã, cheirando a orvalho, é como disse o Poetinha: “...como o cafezinho quente seguido de um bom cigarro, que tanto prazer dão depois que se come.” Se você não fuma – eu mesmo não fumo – ou não é chegado a um café fumegante, imagine para si próprio a analogia, mesmo que emprestada de outros. O importante é saber apreciar a grandeza pulsante nos pequenos acontecimentos da vida cotidiana.


CRÔNICA SELECIONADA PARA ANTOLOGIA DO 1° CONCURSO ESCRIBA DE CRÔNICAS.