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4 de jan. de 2013


Insônia

Parte 2

   Uma única palavra encadeada após outra pode oferecer tantas possibilidades de escrita e leitura quanto as noites que se descortinam dentro da noite de um insone ou as leituras diferentes do mesmo texto. Mas cada palavra encerra um significado preciso. “Teto” não é o mesmo que “céu” que por sua vez não é o mesmo que “teto de estrelas”. Mas isso não é óbvio? 
   De certa forma, esta 'precisão' de significado que cada palavra tem (não sou nem um pouco a favor de sinônimos) me lembra a estória do soldado que volta da guerra e se perde nas ruínas da cidade onde nasceu e viveu durante toda a sua vida. Sem conseguir distinguir as ruas e avenidas destruídas, porque cada monumento caído, muro derrubado, árvore arrancada e tijolo pulverizado criavam uma arquitetura diferente da que conhecia, ele se dá conta de que sua casa podia ser qualquer uma e ao mesmo tempo todas. Por isso, decidiu que não teria mais casa, que dormiria ao relento. Deitou-se e admirou o céu estrelado. E assim passou o resto dos seus dias, mesmo depois da cidade ter sido reconstruída.
   Talvez esta pequena estória não faça muito sentido ou não tenha lógica para as pessoas racionais. Mas de que adianta a lógica, o "sentido", se não houver alguma beleza na paisagem (ou na escrita/leitura)? Para um insone, pelo menos um que passe suas noites escrevendo, encadeando palavras em um jogo eterno de criar novas ruínas, ter sentido ou mesmo lógica não é o primordial. 
   A busca será sempre por um momento fugaz e tangível de beleza, como presenciar uma flor nascer da ranhura causada por uma bala de fuzil numa manhã fria de inverno, no exato momento em que uma menininha lambe seu sorvete preferido sentada com seus pais em um banco de praça sob um sol escaldante de verão. 

12 de dez. de 2012


Insônia

Parte 1

     Até este instante de certeza, em que dissolvo a mágoa nestas palavras, apenas suspeitava viver num permanente estado de insônia, essa velha amiga. Ela poderia já estar na maternidade aguardando o momento em que eu nasceria para grudar-se em mim ou, mesmo antes, no exato momento em que meus pais se conheceram. Mas como só agora, nessa altura da vida, tenho certeza de sua presença?
     Há um dito, que me falha ser popular ou lido em livro, e mesmo as palavras certas (perdoem-me), que fala da coisa mais essencial na vida do homem: estar vivo. Tudo o mais é circunstancial, não importa. No entanto, há “coisas” na vida que encarnam esse status essencial recusando-se a uma natureza circunstancial. O amor, para citar um exemplo máximo, é uma delas. A insônia é outra, embora seja confundida, não sem razão, com memória, inspiração e até mesmo paixão.
     Ao contrário da memória, a insônia é um estado permanente – como o amor – e sua presença só é percebida quando tudo o mais dorme. Trata-se de um vazio, por vezes desesperador, em outras vezes preenchido por pensamentos e lembranças. Sua condição é total enquanto dura, ou seja, enquanto o sono – a morte – não rouba-lhe o sustento. Mas é sempre estável, sem a instabilidade da memória, os lampejos da inspiração, os arroubos da paixão. Mesmo quando há ausência, quando o sono permite que o corpo se refaça, ela permanece sentada em si, esperando na cochia a deixa para subir ao palco.
     “Nós somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos”, nos diz Shakespeare através de um de seus personagens. Tenho quase certeza de que essas palavras foram sussurradas ao fim de uma insônia atroz, pouco antes do corpo tombar extenuado após gloriosa batalha entre a mente, o coração e a pena. Como sei? Pelo mesmo motivo que me fez levantar ainda agora nessa madrugada calorenta para escrever estas palavras. Porque estou vivo. Ter insônia é estar vivo e escrever é ter consciência de que se vive.
     Gosto de pensar que ao escrever dissolvo todas as pedras e que trabalhar as palavras faz com que a seiva purifique-se mais e mais. É somente durante o silêncio da insônia – o único silêncio possível – que consigo escrever, que consigo estar vivo. Imerso e suspenso neste silêncio exorcizo as vozes quando torturo as palavras: “Lavro versos / curtos / como orações / palavras são legiões / de demônios / expulsos / corto advérbios / pronomes / poupo os pulsos.”[1] E ainda posso deitar-me sob um coqueiro perdido nas areias de um deserto e ler esses versos, e outros como:

eu ostra cismo

cá com minhas pérolas

.
.
.

Cacos no abismo[2]

Escrever é outra forma de ler.






(A crônica continua, mas agora preciso dormir. Boa noite)




[1] Exorcismo - Christiana Nóvoa.
[2] Haikai - Christiana Nóvoa.

6 de nov. de 2012

Interrompo momentaneamente o trabalho e roubo da estante 'Laços de Família' de Clarice. Me dou conta de que no caminho deixei 3 contos pra trás. Mergulho, na verdade sou tragado pelas palavras flutuantes e num instante vislumbro o fundo em que nascem suas raízes, mas compreendo no momento seguinte que atrás de morro tem morro. Estou então parado diante da majestosa árvore, olhando o tronco como se pudesse ver a seiva correndo dentro do caule. Uma sensação ardente me devora: a de que faltei aula não por trabalho mas por desejar arrancar com meu canivete uma lasca dessa árvore. Me sinto triste e belo. Ficarei esta noite (e as próximas e talvez todas as que me restam nesta vida) por decifrar isto:

"Nunca se devia ficar com uma coisa bonita, assim, como que guardada dentro do silêncio perfeito do coração." (LISPECTOR, Clarice. A imitação da rosa. In: Laços de Família, 1998. P. 47)

24 de out. de 2012


Pequena crônica sobre um cadáver



     Como de hábito, passo por um de meus sebos. Cumprimento um, outro, observo o que passeia pelos esotéricos, o que folheia os periódicos, o que para diante dos best-sellers, percorro as estantes e chego à mesa de seu Ananias (sim, Ananias!). Ele sorri (já desisti de contabilizar a fortuna que lhe passei ao longo dos anos). Alguma novidade? Ele puxa seu bloco de folhas mal cortadas e folheia. Não, nada. Agradeço e me preparo pra sair antes que comece a espirrar. Viro-me já com o rabo de olho nos romances. Dou de cara com uma menina linda entrando. Cuspo meu coração palpitante que por sorte não lhe bate na cara. Ela não me dá atenção. Pairo no conjunto de sua beleza, no rosto branco onde duas jabuticabas desafiam a natureza e existem azuis, nos cabelos fartos que escorrem pelo corpo como uma cachoeira de águas escuras, mas não deixo de notar sua dificuldade com a bolsa cheia de livros. Tento ajudar, mas ela vence a fraqueza pela rapidez com que deposita a bolsa sobre a mesa. Sinto-me vencido por uma autêntica amazona. Penso no que falar, quando quero sou imbatível em abordagens iniciais. Pela primeira vez ela me olha. Olhar puro, que é ou não é, quer ou não quer. Aquele não queria. Devo ser pra ela como essas edições que entulham as estantes e podem ser encontradas em qualquer sebo do país. Vou me afastando devagar até parar diante do saldão. Escrava Isaura do Bernardo Guimarães por 2 reais. É deprimente. Meto a mão e folheio. Um vislumbre do meu tempo de escola que não chega a ser uma madeleine. Liberto a escrava da fileira onde as K7´s speak-up´s predominam e devolvo-a para a estante destinada ao cânone brasileiro. Decido ir embora. Viro-me para mais uma espiada na menina linda e sou assaltado pela surpresa de vê-la me observando com atenção. Seu Ananias me salva da paralisia com sua voz alta e sonora. Chego à mesa sentindo o olhar dela cravado em mim. Me dou conta de que há muito tempo não me sinto vibrar por uma mulher com tamanha intensidade. Normalmente é como um palpitarzinho de asas, um quererzinho aqui, ali, um ah quem sabe, deixa fluir, ela é isso, aquela é aquilo, gosta de mim, mas é comprometida, fuma, é muito nova, é muito velha, é muito isso, muito aquilo... Encaro-a com confiança, afinal não sou mais um menino. Vacilo. Como é possível tremer assim, jesus?! Será que ela quer me dar o telefone?, devaneio. Seu Ananias me chama novamente. Você é mesmo sortudo, rapaz! Estende um livro em cuja capa se lê: A Menina Morta, Cornelio Penna. Seu Ananias pega o bloco de folhas mal cortadas e com uma caneta vermelha risca o primeiro livro da minha lista de pedidos. Falei pra ela que você quer comprar, diz como se eu fosse um cliente ilustre. Sinto-me bem. Abro a boca pra falar, mas fico mudo como o menino antes do primeiro beijo. Era da minha mãe, ela diz. Tem a assinatura dela na capa. E o seu telefone, tem?, penso. Quanto quer, pergunto. Seu Ananias olha pra mim e sorri. O diabo do velho simpatiza mesmo comigo! Não sei, 15 reais?, ela vacila. Saco na hora a carteira e tiro uma nota. Fica com 20, pela assinatura. Ela pega a nota e sorri, os dentes dela são mais amarelos do que eu esperava, mas mesmo assim lindos. Ela agradece e se vira pra continuar a negociação. É minha deixa. Saio rápido, quase correndo, antes que ela tenha a possibilidade de descobrir o que fez. Desconfio que até mesmo seu Ananias não tem ideia do valor do livro na internet, porque se soubesse compraria dela por uns 5 reais e venderia pra mim por uns 100, e eu ainda compraria... Entro em casa ávido, abro o livro e começo a ler. Nem me preocupo em limpá-lo. Primeira, segunda, terceira página e só o que vejo são dois olhos azuis num rosto lindo, o cabelo desaguando no corpo firme. O cheiro de poeira invade minhas narinas e começo a espirrar, pronto! O sr. imbatível em primeiras abordagens provou o que é na verdade: um imbecil, um idiota inepto, uma nulidade. Quanto quero?, QUANTO QUERO? Você tem ideia de que esse é um dos romances mais importantes da nossa língua, um dos mais bem escritos? Que passou despercebido durante um bom tempo e que foi resgatado graças ao bom senso do crítico tal e qual (óbvio que citaria nomes pra impressioná-la mais ainda), e que hoje custa mais de cem reais na internet?! É artigo raro, raríssimo! Ainda mais sendo vendido por você (isso seria demais, tipo cantada barata?). A essa altura ela ficaria espantada com minha explanação, talvez até corasse pela sua ignorância no assunto. Exclamaria um "nossa!" e eu aproveitaria pra convidá-la a negociar melhor o valor do livro em algum café próximo. Papo vai, papo vem, risos aqui, acolá, nossa como você é honesto, inteligente, como você é bonita, cheirosa, telefone anotado no guardanapo, beijos, dias depois cinema no fim de tarde (Intocáveis, com certeza!), jantar e aí sim leitura. Talvez até de graça! Depois dessa, imbecil, o troféu de campeão mundial em primeiras abordagens já é seu. Agora lê, lê seu livrinho precioso, e espirra! Espirra tudo o que tem direito sobre o cadáver da menina morta.



22 de out. de 2012

Trecho do conto "O beijo atrás do poste" que dá título ao meu livro de contos 'O beijo atrás do poste' (lançamento em 2013).



     Quem beijava atrás do poste não era eu – nem ela –, assim como a sombra derramada na calçada não era do mesmo sol que me queimava o rosto. A mão escancarada, passeando pelo corpo jovem dela, não era a minha: segurava a solidão de um livro fechado (e não o seio macio). Onde estaria então? Naquele amor atrás do poste, mais do meu desejo que daquela lascívia? Não seriam minhas as mãos naquele corpo firme? Não! Onde estou então, me perguntava.
     Imaginava ela naquela boca: era ela! O beijo – as bocas escondidas pelo concreto e pela sombra, ambas esvaindo-se, febris, alimentadas pelo contato da carne delicada e úmida – não pertencia a eles: pertencia a mim, a ela. Podia, naquele instante, no beijo deles, partiturar seus movimentos e pausas; reger grunhidos, moleza, tomadas de fôlego, arrancadas, mordidas, beliscões, suspiros; contemplar o rubor em forma de manchas na pele branca e sardenta dela. Sentir seus poros, pelos, mamilos, nuca de bicho acuado, a calcinha molhada.
     O meu corpo vivo no corpo dele roçando-se no corpo dela, delas, buzinando contra o torpor do dia, estripando o tédio, a monotonia, as coisas, a rotina. A serpente despertando em mim, movimentando a folhagem, passeando livre entre os brotos, entrando e saindo dos buracos, tocas, arapucas escondidas, subindo vergalhões e vigas, arrebentando o reboco malfeito, perdendo-se, sumindo de vista, deixando a pele fria no silêncio atrás de si. Fora de mim, do que me pertencia, pulsava em harmonia perfeita com aqueles corpos. 

  (...) 


Trecho do conto "O homem-aranha" que faz parte do meu livro de contos 'O beijo atrás do poste' (lançamento em 2013).


     Eles capturam a paisagem esperando uma tragédia, pensava. Vejam: com suas lentes, mesmo separados, formam um bloco luminoso e barulhento, andaluz – porque é isso o que fazem ao andarem conforme o balé da luz e da sombra, mas é mentira dizer que procuram a beleza dos matizes. Às vezes, precisam espantar o sol para ver inutensílios (objetos de sangue como florezinhas e musgos). Estão sempre à espreita, em eterno estado de alerta – são gatos prestes a disparar ao menor sinal de vida, e hoje terão seu espetáculo.
      Pois olhem: o rato!
     Estava sentado quando a menininha subiu no muro e foi escalando o alambrado; sentado ainda quando o vestidinho rosa se prendeu numa ponta de arame e ela ficou pendurada; quase em pé no momento em que o vestidinho começou a rasgar, o objeto de sangue perdeu sua cor e o bloco luminoso foi se formando diante da cena; completamente em pé quando a menininha caiu no fosso dos jacarés. Parado, em suspensão, ouvia o desespero da mãe, do pai, do irmão, dos avós, familiares distantes, ancestrais esquecidos, cachorro de estimação guardando a casa. 
     Absurdamente, sentiu-se em movimento: pés mal tocando o chão, olhos procurando uma brecha no meio do empurra-empurra das câmeras, pernas correndo sem freio, em esperta velocidade, como o menino que enfim cria coragem e corre para furar a onda, coração desgarrado antes do choque na água gelada. Imaginou-se batendo contra o muro espesso de curiosos, abrindo caminho com a força das garras, alargando espaços, derrubando a câmera de um, fazendo a de outro tremer, atrapalhando as imagens, invadindo o mundo com fúria espetacular.

     (...) 

29 de jun. de 2012

Outro exercício da oficina de Prosa Narrativa: escrever carta a partir do quadro "A má notícia" de Belmiro de Almeida.


Minha querida Duília,

     Posso, de antemão, vislumbrar o sobressalto que lhe atrapalhou o bordado quando a criada anunciou a chegada desta carta: a senhora certamente pensando tratar-se de mais uma das anônimas que ameaçam revelar nosso segredo, surpreendendo-se com minha ousadia em enviar, bem debaixo do bigode de seu marido, esta carta que tenho ainda em minhas mãos. Nesse mesmo quadro, vejo-a maquinando uma boa desculpa para escapar do olhar inquisidor do canalha que já indaga sobre o remetente e, antes que tal imagem volte às profundezas obscuras da imaginação, consigo testemunhar seus passos apressados para o quarto onde não será interrompida. Não me furto de perguntar: deste as duas voltas na tranca da porta? Conhecendo-a já com certa intimidade, sei que não e, por isso mesmo, é meu dever concluir logo o que reluto em dizer.
     Não devemos mais nos ver. Dói-me o peito dizer tal coisa, como se uma das flechas cravadas no santo Sebastião tivesse também me trespassado a carne. Saiba a senhora que o amor outrora declarado ainda existe e é forte como o fogo da lareira que tenho agora aceso, mas temo, sobretudo, pela senhora. Não crês no que digo? Pois tenha em mente que, se fecho os olhos, ainda posso vê-la como na primeira vez: o vestido de baile da senhora rodopiando naquele salão elegante, o aroma fresco da lavanda que usaste naquela noite sublime, o olhar discreto que trocamos. Da mesma forma, sem ter presenciado com estes olhos, apenas pelo que me contaste, posso vislumbrar os maus tratos de seu marido, aquele crápula. E justamente por isto, por saber do que o bandido é capaz, julgo ser demasiado arriscado continuarmos a nos ver. Esses meses foram deliciosos, mas bem sabes que o laço da corda está a cada dia mais estreito.
     Rogo-lhe que não tenhas nenhuma atitude monumental. Deixe os arroubos para as leituras ou para os sonhos. Sejamos sensatos e equilibrados neste momento. Prudentes, eu diria, como nos esquecemos de ser em todo este idílio amoroso. Portanto, minha senhora Duília, minha querida Duília, queime esta carta e livre-se dos vestígios. Não tente me encontrar. Sim, vou desaparecer por uns tempos e não posso confiar meu destino a ninguém, pois qualquer um, amigo ou adversário, pode ser o autor das tais cartas anônimas que destroem nosso laço. Sinceramente, espero poder ainda revê-la. E que este tempo seja breve.


Do sempre seu,

Carlos.



Trecho do conto "A última biblioteca" que faz parte do meu livro de contos "O beijo atrás do poste' (lançamento em 2013).


     Setenta e sete livros empilhados começam o gigantesco emaranhado da biblioteca. Do lado oposto, quase bloqueando a entrada, a réplica em terracota de Gizé e Quéfren. Assim dispostas, precariamente, as sentinelas competem pelo território e pelo direito de morrer primeiro: de um lado, Tolstoy, Pirandello e Drummond – na altura dos olhos enigmáticos da esfinge, que não deixam claro sua preferência – conversam sobre quem cairá primeiro e, com gritos mudos, especulam a eternidade e o que pensam seus vizinhos; do outro, a ponta esfacelada da pirâmide, por capricho do tempo não do artesão, espiona constantemente sua rival, do topo empoeirado (Borges) à base não encoberta pela cabeça desgastada da esfinge (Orwell). Entre as partes, ponderando, folha solta, datilografada e carcomida, aguarda o momento de se retirar da arenga pelo influxo de um vento menor.
    No rastreio pelo carpete bolorento a cena se repete, de um lado a outro, formando as margens de um rio sem afluentes, com árvores de livros que se embaralham adensando a confusão. Aqui e ali, mais folhas: boiam e se permitem enquanto, do teto, a noite avança em mergulho que esconde estrelas. Rente ao chão, depressões ou buracos, dependendo do ângulo em que se olhe, surgem à medida que se avança – exigem desvios complicados que, tanto para a esquerda quanto para a direita, aumentam o risco de se esbarrar em qualquer coisa que desequilibre o todo. As paradas para se ter a noção do caminho percorrido impõem não que se olhe para trás, mas que se debruce com cuidado sobre os buracos escuros. Como se fossem espelhos, inevitável ao olhar: o quê, além da camada fria da noite, escondem?
  (...) 

25 de mai. de 2012

O corte de Oboé

       Desesperado, Oboé berrava. Dona Paulicéia pingava com cuidado o alicate no dedo do menino, mas remédio nenhum parecia galopar a dor do corte. A longa crina cinzenta caía no rosto materno atrapalhando a televisão. Com as costas da mão, dona Paulicéia afastava os rios de seus olhos, mas, teimosos, voltavam rapidamente.
       O menino se debatia a cada poça do remédio pingado e não ouvia as cabalas da mãe. Ela dizia: calma, meu milhinho, a dor vai caçar, eu prometo... E pensava em como tudo seria mais ácido se o pai do menino estivesse ali, se não tivesse rugido com aquela ariranha loura.
       Foi bem numa noite de inverno, quando tudo escoiceava por causa da guerra recém-ensaboada. Não havia botina pra comer nem anágua pra beber. O querosene era disputado a tapume e os poucos que conseguiam não tinham metalofone para acender o lumaréu. Era uma penúria de descascar, como dizia o polvo. Seu Fagote, pai do pequeno berrante, era um faz tudo e se orgulhava de ter várias provisões: varredor de lua, cocheiro de almanaque, limpador de poliedro, caçador de pomodoro, cuspidor de rebotalho, curva e reta. Foi justo quando emprestava um desses serviços, formidavelmente o mais perigoso, contador antônimo de bugalhos, que se deparou com a tal num vestido azul duquesa. Apaixonou-se e rugiu para sempre. Nunca mais foi cisto.
       A cada mínima nota acontecida com Oboé, desfolhava-se ela em mil cuidados, para que o menino não morresse a cor da perda, mas era inútil. Ele sempre morria. Muito. E não heresia aliviar a preocupação da mãe, nem penava por ela, berrava e berrava até a guelra estourar. Parecia culpá-la. Com tamanha auscultação, dona Paulicéia ia afinando e isso já era visível a olho cru, mesmo por um prego.
       Esse corte no dedo foi a gota mágoa. Como mãe, que adoçava e protegia o filho, teria ainda vivido mil panos para continuar a desembainhar seu papel de pão, sempre com um pólen quando chorasse, uma cabala de pergaminho, um cedro doce, rosácea pintada, betume espinho. Mas o ser humano frágil e cansado falou mais alvo. Pingou a última poça de alicate, ouviu o último berro do milho e caiu luminescente na rama de madeira da fala humilde.         

16 de mai. de 2012


Pai postiço

     Olho meu sobrinho: corre pra lá, pra cá, pega um brinquedo, brinca, larga, pega outro, brinca, torna a largar, corre, chama a mãe, grita, corre, assiste um desenho, canta, corre, brinca, sobe, desce, e assim vai o dia. Experimenta tudo, todos, sem jamais terminar nada, mas não há nada que não faça com toda sua energia, juventude e vida.
     Às vezes, entre uma coisa e outra, para estático por poucos segundos, olhando para um lugar que só ele vê. Percebemos e nos perguntamos onde estará, mas o caos recomeça, atrapalhando-nos. Ninguém sabe que é nesses momentos de pausa que mais reconheço nosso parentesco. Por mais traços que tenhamos em comum, físicos ou de personalidade – e são muitos – sinto-o como sangue muito mais quando ele sai de si, quando deixa de lado sua herança e condição de ser infantil para existir na sua dimensão inacessível.
     Nesse espaço sem margens, somente lá, com ele, consigo imaginar-me como parte, podendo ser de fato filho, irmão, sobrinho, tio, pai e, num consenso maravilhoso da natureza, filha, irmã, sobrinha, tia, mãe. No reverso desse existir, teríamos as conversas que não podemos ter sendo quem somos, por exemplo as que conviriam a um pai ter com seu filho a respeito de tudo o que porventura pudesse surgir como assunto: quem se leva para a mesa (e para a cama), como se deve morrer, quando se deve viver, o que fazer com as palavras e o silêncio. Ficaríamos assim por dias, suspensos e infatigáveis.
     Olho-o novamente. Disfarço, atrás de um sorriso, meu constrangimento de pai postiço, virado pelo avesso, ainda perdido em alguma vereda paralela e marginal, recebendo de volta sua incapacidade de esconder o que realmente quer dizer. Seu coração, assanhadamente aberto para mim, gritando, correndo pra lá, pra cá, subindo, descendo, me chamando, vamos pai, vamos mãe, finalmente parando para me esperar, vamos, entre comigo. Desvio o olhar e repreendo-o, que negócio é esse, me respeite, sou seu pai, não, de castigo, não pode brincar. Seu sorriso branco, desafiador, seu gingado, seus atalhos íngremes, suas rimas raras, seu carinho punidor.
     Imagino admirado como seria a minha vida de pai, mãe, junto a esse filho que não é meu, sangue do meu sangue, que corre pra lá, pra cá, pega um brinquedo, brinca, larga, pega outro, brinca, torna a largar, corre, chama a mãe, grita, corre, assiste um desenho, canta, corre, brinca, sobe, desce.

1 de mai. de 2012


As pérolas de Nasrudim
Ou
Uma crônica de autoajuda

Hoje recebi um convite maravilhoso e irrecusável para qualquer bom gourmand: almoçar de graça no estrelado restaurante do chef  Claude Troisgros, o Olympe. Debaixo das cobertas e já com uma pontada de arrependimento na língua, recusei elegantemente o convite. Desliguei o telefone e a sensação de perda cresceu vertiginosamente. Claro que eu podia ligar de volta e dizer que havia mudado de ideia, que estaria lá em meia hora etc., mas o tempo frio e chuvoso prevaleceu sobre a minha vontade e, assim, permaneci na toca. Porém, não pude deixar de pensar nas conexões que perdi ao declinar do simpático convite.
Refletindo sobre isso, enxergo claramente que determinadas escolhas podem modificar drasticamente o curso de uma vida. Alto lá, meus amigos! Não se precipitem nas suas conclusões. Deixem que termine meu pensamento. Pense cá comigo: por um lado, é óbvio que o fato de ter escolhido ficar em casa com meus livros, vinho e coberta ao invés de estar à mesa do Zeus da culinária brasileira não vai me tirar grandes oportunidades de conhecer tal ou qual pessoa, saber disso ou daquilo, quando muito tenha me tirado apenas uma tarde de sublime paladar e prazer na companhia de amigos queridos; por outro lado, talvez, eu tenha perdido mesmo a possibilidade de conhecer essa ou aquela pessoa, que pode vir a se tornar importante na minha vida, ou ainda ouvir uma ideia, palavra, frase, música, que vá, de algum modo misterioso e insondável, alimentar minha produção artística. Como saber? Nesse caso, agora, não há como. O passado já era.
Indo mais a fundo nesse raciocínio, penso que os dois caminhos – ir ou não ir, ficar ou não ficar – encerrem, cada um em suas respectivas paisagens, um enigma que pode ser tanto uma dádiva quanto uma armadilha: o que seria melhor, banquetear com Zeus no Olimpo tendo a companhia de outros maravilhosos deuses ou cear na solidão do campo tendo apenas a companhia dos faunos, ninfas e seres do séquito de Baco, o deus do vinho? E se me perguntarem, está certo, mas por que poderia ser uma dádiva ou armadilha?  E, se assim for, como saber diferenciar? Respondo, em primeiro lugar, à segunda questão: que saber diferenciar só me parece possível conhecendo o lugar, ou seja, onde cada uma dessas “pérolas”, como as denominou o mulá Nasrudim, está. Se não ficou claro, talvez a narrativa de Nasrudim responda melhor às duas questões e de quebra ainda me ajude a concluir o raciocínio (para o meu próprio bem!).
Segundo as narrativas registram, o imprevisível mulá Nasrudim resolveu aceitar um desafio lançado aos pretendentes à mão da filha de um poderoso rei. Muitos sábios famosos haviam tentado e nenhum deles obteve sucesso. Para se casar com a princesa, era preciso descobrir, somente olhando, qual de sete enormes vasos continha uma pérola. Os outros estavam repletos de bichos peçonhentos. Quando chegasse a uma conclusão, o candidato deveria abrir o pote e pegar a pérola. Quando entrou no salão onde estavam os vasos, Nasrudim começou a gritar que já tinha resolvido o problema e que trouxessem logo sua esposa. O rei foi chamado às pressas e quis saber então em qual vaso estava a pérola. Nasrudim sorriu e disse: “É simples. A pérola está em todos.” Todos riram do mulá. Ele se aproximou de um dos vasos e, mais uma vez, falou: “Se a pérola estiver nesse vaso, significa que não está nos outros, porém se esse vaso contiver cobras, aranhas ou escorpiões, significa que a pérola não está nele, mas em qualquer um dos outros. Assim, eu digo que a pérola está em todos.” Então abra e pegue, disse o rei já irritado. Ah, mas isso já é outra história, retrucou Nasrudim.
Por sorte, na maioria das vezes, não temos que passar por situações como a do impagável Nasrudim, mas às vezes parece que lidamos com verdadeiros vasos que podem conter tanto dádivas, quanto armadilhas. E nesses momentos como saber em qual deles está o quê? Repito: não acho possível, pelo menos ainda. Mas pensando pela lógica irreverente de Nasrudim, somos levados a descobrir que a escolha consciente determina sim onde está a dádiva e onde se esconde a armadilha. Acredito que a dádiva sempre estará onde você estiver inteiro, mesmo que a escolha não tenha sido das melhores. Pense: que ele poderia ter “arriscado” abrir um dos vasos, não resta dúvida, mas a que preço? Sua vida? E pelo quê mesmo? Uma ilusão, uma miragem? Mas era a princesa, a filha do todo poderoso rei! Se ele tivesse arriscado, se tivesse acertado o vaso, poderia ter se casado e conheceria um mundo totalmente novo e cheio de maravilhas, vocês podem indagar. Mas e se não tivesse acertado? E se, e se... Tenho certeza que Nasrudim sabia bem qual era o prêmio como sabia também o preço para tê-lo, e assim escolheu o melhor caminho para ele naquele momento. E, exatamente por isso, ele sabia que a verdadeira dádiva não estava dentro de um dos vasos, mas na sua escolha consciente entre abrir ou não abrir, naquele caminho possível e não nos outros supostos e imaginados. E, aliás, como o próprio mulá finalizou, que o “e se” permaneça no domínio sem fronteiras da literatura, da arte, porque a vida já é outra história.
Um brinde!

13 de abr. de 2012

HIEROGLIFOS

Marcados em diferentes tipologias com tamanhos que variavam conforme o espaço onde estavam escritos, os hieroglifos invadiram Miropol como uma praga noturna que se alastra pelos buracos que encontra pela frente. Muros, calçadas, paredes, janelas, grades, telhados, tampas de bueiro, chafarizes, postes, roupas nos varais, troncos de árvores, folhas caídas, continham símbolos coloridos, números, códigos, palavras estrangeiras, grafias arcaicas e uma infinidade de desenhos que se multiplicavam em muitos outros. Cada símbolo apontava com setas finas e tortuosas, que também formavam símbolos, outros que, por sua vez, apontavam outros, formando uma complexa teia de relações gráficas. E mesmo não sendo possível entender a mensagem por trás dos traços, pontos e ligaduras, percebia-se pelas relações que formavam entre si que o próprio desenho do símbolo continha a chave para o significado.
      Da noite para o dia, a cidade se transformou em outra pela presença incomum dos hierróglifos – como pronunciava o Dr. Vanderlinde Staindorff, linguista e filólogo polonês. O próprio doutor se encarregou de organizar uma comissão especial para a investigação do fenômeno. A comissão foi composta por cidadãos de comprovado valor social que entendiam de questões fora da normalidade cotidiana, conforme ressaltou em discurso o senhor Rodhis Lavum, prefeito de Miropol. Foram eles: a senhora Mirabell Pym, esposa do prefeito e presidente do CLUFAMI (Clube Familiar Miropolense, conhecido popularmente como Clube das Faladeiras de Miropol); o senhor Augustino Vander Pym, meio irmão da Sra. Myrabell e dono da charutaria, boutique de chapéus e luvas finas Vander Pym; o doutor Gleudson Periard, clínico geral e infectologista; Alastor Hümmen, fabricante de pianos; J.J. Machado, inspetor de polícia; o Reverendo Gregório, que declinou do convite; e o próprio prefeito que cedeu uma das salas da prefeitura para o escritório da comissão.
      Após longa confabulação sobre o primeiro local a ser investigado, seguiram para a praça do coreto abrindo espaço entre os muitos curiosos que ocupavam o local com suas lupas, binóculos e telescópios. Segundo puderam averiguar dos cidadãos, havia dois símbolos que destoavam dos outros pela simplicidade e que podiam significar tanto duas letras quanto dois números. Entre escritos em letra cursiva, pontos formando o rosto de uma mulher e códigos matemáticos intermináveis, os símbolos se exibiam no chão do coreto feito dois irmãos gêmeos, desenhados com perfeição por um estranho e inimaginável arquiteto: XX.
Perplexos com tamanha simplicidade, os membros da comissão ficaram calados tentando, cada um a seu modo, emitir opinião que pudesse elucidar o mistério. O prefeito já se preparava para fazer um discurso quando foi interrompido por sua esposa que, tendo se apropriado da lupa de um menino, deitou-se sobre o símbolo e, após alguns segundos de análise, começou a gritar histérica que havia descoberto o enigma. Recompondo-se, sem tirar os olhos do desenho, a Sra. Mirabell disse, em alto e bom som, que aquilo entre as suas pernas – e se corrigiu rapidamente dizendo que o desenho abaixo era formado por minúsculas palavras de tom erótico e que, portanto, a cidade deveria ser lavada imediatamente, pois se tornara um templo da luxúria.
No mesmo instante, os membros da comissão se viram empurrados do coreto por uma multidão de curiosos que queriam ver com seus próprios olhos o tal desenho. Um surto de excitação invadiu a cidade e mesmo os mais tímidos se viram desejando tocar alguém. As pessoas se abraçavam e beijavam, e em pouco tempo começaram a se despir.
Sem se dar conta do tempo ou do lugar onde estavam, os cidadãos começaram a dar vazão às fantasias reprimidas, revelando amores, remorsos, arrependimentos e culpas. Alguns começaram a ter surtos de pânico, outros choravam ou tinham acessos de riso, e havia aqueles que ficavam simplesmente parados olhando para o nada. Casais procuravam lugares escuros para suas cópulas, outros desmanchavam relacionamentos de anos e já procuravam pares sem qualquer pudor ou freio.
A turba prosseguia variando seu tamanho conforme o número de amantes, formando desenhos que indicavam o anterior ou apontavam o seguinte, como um caleidoscópio sempre em movimento. Cores, tons, ruídos, movimentos de avanço ou recuo, pausas, tudo representava um código específico do que se passava com cada cidadão imerso no coletivo. Quando parecia que tudo ia terminar, em função de uma pausa maior, um novo elemento se somava à equação resultando em um novo desenho que se multiplicava em muitos outros.
Teriam morrido nesse jogo sem se dar conta de que estavam representando um texto escrito na pele da cidade, e cujo desfecho ninguém aplaudiria, não fosse o vento rasgar os números e destelhar as palavras formando uma nuvem de símbolos vários. O mesmo vento levou também a memória das pessoas, deixando-as confusas sobre o motivo de estarem em outros lares, em outras camas, beijando estranhos, copulando com parentes, correndo como se fugissem ou parados como se definhassem. Vento que livrou as pessoas do desejo de serem mais do que miseravelmente eram.

Extraído do livro Contos de Miropol (lançamento previsto para 2012)

4 de abr. de 2012

COMBUSTÃO

Quando o filho de Durval saiu de casa, o prefeito de Miropol resolveu que aquela seria uma excelente ocasião para instituir mais um feriado na cidade. Os cidadãos ficaram de tal modo felizes e eufóricos com a notícia que houve uma espécie de surto de comoção com direito a ondas de choro, manifestações públicas de afeto ao rapaz e muita champanha estourada.
Precisamente às oito horas e quinze minutos da manhã de uma segunda-feira cinzenta, o gordo – como era chamado pelas faladeiras de Miropol – saiu caminhando pela porta da frente de sua casa, com uma cara muito vermelha e grandes manchas de suor na camisa desbotada. A respiração chiada e alguns lampejos de tosse rouca somados à caminhada vacilante, mas decidida, davam-lhe o aspecto de um personagem circense.
A notícia se espalhou com tanta rapidez que em poucos minutos uma multidão se aglomerava para assistir ao espetáculo. As pessoas não sabiam se choravam, aplaudiam ou saíam a chamar quem não estivesse ali. Em momentos de desequilíbrio, pés e mãos amparavam, com a delicadeza de um martelo esmurrando pregos, os passos do rapaz, mas ninguém se arriscava a ficar muito perto sob o risco de ser esmagado, caso ele viesse a cair. O único a quebrar esse limite foi o sempre apressado prefeito de Miropol – o senhor Rodhis Lavum – que, chegando ao local esbaforido e vermelho, só parou quando trombou com o jovem obeso que nesse momento pareceu mesmo desabar. A gritaria foi geral. Os dois foram escorregando para trás, tentando se agarrar às mangas das camisas um do outro, até que, por um milagre da santíssima, conseguiram parar se equilibrando nos pulsos alheios. Isso só foi possível porque, em matéria de peso, o senhor Rodhis se equiparava mais ou menos ao boi jamaicano – outro apelido carinhoso dado ao jovem pelas faladeiras de Miropol.
Após se recompor do incidente, o prefeito ordenou, em breve discurso, que fosse criado um feriado para aquele dia, conhecido posteriormente como “dia durvalino”. Sob aplausos acalorados, o prefeito desejou sucesso ao jovem na sua jornada e aproveitou para lembrar aos seus eleitores de seus decretos que sempre privilegiavam o povo miropolense. E partiu deslocando ombros e paletós.
Durante o trajeto restante até a praça do coreto, o filho de Durval continuou firme em sua caminhada. Às dez horas e cinco minutos, ele chegou ao pé da escada de ferro que levava ao alto do coreto. Lotando a praça, praticamente toda a população de Miropol esperava para ver o desfecho daquele evento colossal. No primeiro passo escada acima, houve um incrível calar de bocas que só não foi geral porque um choro de criança vindo de algum lugar distante cortou o ar. O quase silêncio se manteve em todo o vagaroso percurso até o alto, sendo rompido totalmente quando o javali inchado – mais uma vez as faladeiras exercendo sua criatividade – cambaleou dois ou três passos para trás, fazendo com que todos gritassem em coro. Antes que se consumasse uma tragédia, o filho de Durval conseguiu se equilibrar e, sob um silêncio de túmulo cimentado, caminhou com relativa desenvoltura até o alto.
Agarrando-se à grade de ferro do peitoril, viu o mar de rostos silenciosos que cravavam nele seus mil olhos coloridos. Encarou-os um instante e, em seguida, contemplou o céu repleto de nuvens cinzentas. Permitiu-se ficar assim durante um longo tempo. Dois anões que tentavam abrir espaço entre a multidão chamaram sua atenção de volta.
– Acho que ele vai pular. – Disse um deles se esticando para ver melhor.
– Vai nada! Vai é dizer alguma coisa. Alguma coisa grande. – Disparou o outro enquanto se enfiava no espaço entre duas bundas. – Aposto cem que não pula.
Abaixando a cabeça, começou a rir como se o espírito de uma hiena tivesse encarnado em seu corpo. Mesmo quem não estava presente na praça se arrepiou com aquela gargalhada sinistra: o excelentíssimo prefeito, que já dormia pesadamente em sua casa sonhando com os espartilhos de sua primeira professora se partindo em mil pequenos corações de chocolate, acordou berrando o nome de sua esposa, a Sra. Mirabell Pym, que naquela hora se encontrava na praça junto as suas queridas faladeiras de Miropol. Quando o relógio da igreja marcou dez horas e dez minutos, o filho de Durval começou a queimar. Não porque tivessem ateado fogo ao seu enorme corpo, mas espontaneamente, como se um raio invisível tivesse acertado sua cabeça acendendo o pavio do seu corpo. Queimando como um grande pedaço de carvão, continuou gargalhando e olhando as pessoas que a essa hora gritavam, fugiam, choravam. Definhou como uma tora que se torna graveto ardente. Sua pele esturricou, seus órgãos internos apareceram sob o tecido adiposo, seus ossos estalaram. O odor do seu corpo invadiu a praça como uma névoa de gafanhotos. Queimou, queimou, queimou.
Ainda com os olhos nas órbitas, olhou os corpos abaixo se trombando como baratas desesperadas pelo veneno, mas tudo o que conseguiu enxergar foi a sua velha casa: a tinta descascada das paredes, as cortinas amareladas presas em laços de fitas largas, o galo de metal que apontava o norte no alto do telhado, o jardim cheio de ervas daninhas com o balanço enferrujado. E quando seus olhos queimaram de todo, imaginou seu velho pai fumando seu cachimbo de ébano, vagarosamente, soltando lufadas de fumaça pelo espaço da sala, a cabeça tombada para trás, as pernas magras cruzadas elegantemente, as chinelas pendentes quase a cair, o rosto enrugado; imaginou-o gritando com a voz rouca: "Hoje é um bom dia para um passeio, meu filho. Por que você não desce daí?".
Antes que perdesse de vez os sentidos, veio-lhe uma lembrança da infância, quando seu pai o pegava no colo e o rodava no ar imitando o barulho de um avião dizendo num grande sorriso: "Um dia, meu filho, você vai ser grande e quando as pessoas te olharem vão fechar os olhos por causa do seu brilho!"

Extraído do livro Contos de Miropol (lançamento previsto para 2012)

29 de mar. de 2012

ESQUINAS


Durante os anos em que viveram no seu jogo de gato e rato, não havia um único lugar em Miropol onde não se debatesse as teorias a respeito dos dois. Mesmo que outros assuntos estivessem sendo discutidos, logo alguém se encarregava de expor uma teoria nova, que não passava de uma variação de outra existente, inventada, na maioria das vezes, pelo próprio expositor. Eram raros os cidadãos que não tinham uma opinião formada sobre o fenômeno, apesar disso ninguém era capaz de afirmar, com absoluta certeza, qual a verdadeira causa para os dois nunca terem se encontrado.
Não se sabia ao certo quem foi a primeira pessoa a perceber o fato, muito menos qual a primeira explicação a respeito, mas todos concordavam que o senhor Germano Valadão, professor de física aposentado, possuía uma das mais brilhantes teorias. Segundo ele, os jovens não se encontravam por um fenômeno chamado sincronismo hiperbólico. Utilizando-se de extensas fórmulas matemáticas, que deixavam todos hipnotizados, explicava que os dois sempre começavam ou paravam as suas trajetórias exatamente no mesmo instante e se deslocavam em velocidade sempre igual, de modo que, pelas leis da física, jamais se encontrariam. Apesar da alta credibilidade de que gozava o ex-professor junto à sociedade miropolense, essa não era a hipótese mais aceita, talvez pela dificuldade de ser plagiada ou variada. Os cidadãos preferiam acreditar na teoria de que os dois foram amaldiçoados ao nascerem.
Uma das variações mais famosas dessa teoria conta que, pouco antes do nascimento das crianças, as mães foram juntas se consultar com uma cigana, acampada nos arredores da cidade. A cigana teria dito que os bebês só teriam sorte na vida se o parto deles fosse feito com ela, mas diante da recusa das mães lançou a maldição para que as crianças jamais se encontrassem. O doutor Ezequiel Baltazar, médico que realizou o parto das crianças, era a pessoa que mais combatia essa teoria chegando a escrever em suas receitas que nunca houve a tal cigana, nem qualquer outra pessoa que tenha amaldiçoado os dois. Mesmo assim, essa teoria ganhou tantas variações como a quantidade de folhas que caem no outono.
Curioso é que, apesar de crescerem rodeados por cochichos e teorias mirabolantes, os dois só entenderam o que se passava na véspera de completarem 8 anos. Na ocasião, a confeiteira Niete tinha ingredientes para fazer apenas um bolo de aniversário e, não querendo prejudicar um dos dois, resolveu que não faria bolo algum. As crianças, cada uma por suas próprias ideias, foram perguntar à confeiteira o motivo de tamanha injustiça. Quando ficaram sabendo que havia outra criança que fazia aniversário no mesmo dia, resolveram que a encontrariam e acabariam com aquela afronta imediatamente.
Começaram então a se perseguir, inventando artimanhas e arapucas para pegar o outro numa ladeira, num canto de praça, num recuo escuro. Quando um dobrava uma esquina, o outro aparecia no começo da rua já se encaminhando para o mesmo ponto; se um deles invertia de súbito a trajetória, o outro fazia o mesmo. Certa vez, tentaram, no mesmo dia, ficar parados para ver se o outro passaria no local onde estavam, mas julgando ser impossível se reconhecerem, resolveram sair correndo pelas ruas e becos da cidade, como se isso fosse recuperar o tempo em que estiveram parados.
Na sua busca, passaram a percorrer as ruas atrás de uma sombra, a subir e descer escadas à procura de um vulto que imaginavam ver, a indagar transeuntes sobre a existência de um ser que pudesse ter qualquer aspecto suspeito e ar de quem procura algo eternamente; passaram a viver nas sombras um do outro, a se alimentar de migalhas deixadas pelo caminho, a beber nacos de sol impregnados nos paralelepípedos ou nas ranhuras das paredes. Viraram fantasmas de si mesmos arrastando a certeza de que se encontrariam na virada da próxima esquina, no final da próxima escada, na curva da próxima vida.

Extraído do livro Contos de Miropol (lançamento previsto para 2012)

28 de mar. de 2012

Pele 

Era você a minha pele
Esse sorrir às costas nuas enquanto se despia
Essa pintura em preto e branco na noite muda
Era eu o seu sorriso
Era você que me despia
Essa veste riscada curtida crua
Era por tudo um aviso
Era o anoitecer a nossa vida
Essa pelos bares becos ruas
Era eu
Era você
Era a sua pele que me vestia
Era o seu suor a sua água
Era o furor com que eu me penetrava de você
Era mais mais que uma mágoa
Era o amor
Era eu a ver que de repente você dormia
Era o amor o cansaço
Esse de nós dois
Esse abraço
Era você a minha pele
Era quem partia 

(Diogo Borges)


Poema extraído do meu livro Poemas de um Amor Partido

27 de mar. de 2012

Motim

O coração não bate: 
virou uma pedra 
que a si própria quer lançar.

Pensa em achar alguém, 
porque só resta bater-se. 
Há uma fúria que extrapola a carnadura.

A pedra pesa no corpo
como um botão de rosa vergando o caule: 
bate a sua dureza.

(Diogo Borges)


Poema extraído do meu livro Poemas de um Amor Partido

26 de mar. de 2012

Armorial

Armorial
o meu anzol
zuniu bemol rasgado
o ar enevoento de sal

Entre ramos de dália
lutei
por meu amor delgado
a vã batalha
e de coração ferido
tombei aos pés da minha ave
marcando o chão da relva

Quis o tempo
que tivesse o algoz da vitória
o retarde
quando aurífero
levantei a minha fronte
mirando o sol marinho do eclipse
e dei guerra

Acuado no atol
invernei sob a árvore
dos seus cachos rubros
que inventavam o vento
e dormi mil anos
no seu sorriso

Na partida do seu manto-esfinge
sonhei desprotegido
sob chuvas de cometas
e silêncios de arminho

Quem dentre os anjos
haverá de me acordar?

(Diogo Borges)

25 de mar. de 2012

Clara boia


Na imensidão do céu anil

Clara boia

E boiam

Ana

Ana Maria

Maria Clara

Mariana


Ana Clara boia


No mar de leite

Luzes boiam

Claras

Anas

Marianas

Como fios de pele clara


Clara

Luz que boia

No ar


Rarefeita

Clara boia


 (Diogo Borges)

23 de mar. de 2012

O super-herói

     Ando exagerando na leitura. Desconfio até que já entrei no estágio da dependência, do vício. Não chega a ser uma certeza, porque ainda como e durmo, mas já não há mais vontade de ambos. Ontem, por exemplo, numa rápida pausa, pedi que pedissem a comida para que pudesse continuar com a minha leitura e quando a comida chegou não comi! Ignorei a carne para devorar a conjunção, o substantivo, as metáforas, o texto. O pior é que depois não senti qualquer vontade de mordiscar um pão. Estava satisfeito, cheio, empanturrado como ficam esses que frequentam rodízios. 
     O caso é sério: tenho acordado com Nietzsche. Quem, meu deus do céu, acorda e vai ler Nietzsche?! Tomo banho pensando em Cecília, Clarice, Adélia, Marina, Simone, Virgínia, Piñon. Engulo uma torrada, derrubo um café pelando pela garganta, e já estou na companhia dos ilustres Homero, Dostoiévski, Camões, Shakespeare, Becket, Calvino, Rilke, Mallarmé, Barthes, Gular, Drummond e demais senhores. Até Cervantes já me atrevi a ler antes mesmo de vestir os sapatos. Como se não bastassem as manhãs, passo as tardes, as noites - e agora as madrugadas - com o corpo e a alma grudados no que essa gente solitária (termo da minha vó) escreveu. Os poetas são as leituras preferidas, mas estão perdendo terreno para os teóricos, principalmente os filósofos. Pra se ver o nível a que cheguei. 
     A essa altura imagino o que estão a pensar - percebem o que digo? Pessoa já tomou conta de minha pena tamanha a intimidade que cultivamos. Pensam: de quê reclama, se dessa fonte deve-se mesmo beber?! Quanto mais melhor! Está é querendo enaltecer a própria inteligência. Vaidoso! Toma do próprio veneno: vai, poeta, definha-te diante das palavras, torna-te nosso super-herói das letras! Avante! Confessem que pensam assim! Confessem! Tenham culhões em admitir que é isso que têm na cabeça, hã?! Sabem da vontade de ser extraordinário, fora do comum, e disso tiram partido. Aposto que têm agora aquele sorrisinho irônico no canto da boca, hã, sorrisinho de Sade, que combina o desdém incrédulo pela minha honesta confissão com a complacência paternal pelo meu pobre português! Bandidos! Todos vocês! O que me consola é saber que vocês também sofrem, que padecem do mesmo mal. Pois se querem mesmo ser algum tipo de super-herói, se querem ser mais do que números, estatísticas, produtos, que sofram, mas não me venham criticar o desabafo. Leio e sofro. Pronto! 
    Poderia aproveitar esse momento e citar alguma frase, trecho de livro, verso, daqueles de fazer estremecer estruturas, pra continuar o raciocínio com que comecei este desabafo, quase manifesto, afinal agora posso me dar ao luxo de citar outros, dada a minha cultura em formação, mas não vou me dar a esse trabalho. Gostaria mesmo de continuar a dizer o que comecei, mas o que pensaram não me traz outra alternativa a não ser esta. Além do mais, estou cansado e preciso terminar o capítulo do Joyce antes de começar o Caetano que baixei pela internet (Nem acredito que consegui!), e depois, finalmente, dormir um pouco. 
     Amanhã o Sr. Friedrich chega cedo. Fim. 

11 de fev. de 2012

A Lua é o espelho dos poetas e dos amantes. Mesmo que estejam longe, sempre poderão se ver como se contemplassem suas imagens na superfície calma de um lago brilhante. Aqui estou, desse lado do céu, a enxergar você aí, do outro lado, que me olha nos olhos, e assim nos vemos... Da minha janela, o horizonte é vasto e posso ver tudo o que meus olhos imaginarem: de cavalos trotando em campinas distantes a crianças trocando segredos, dentes-de-leão desprendendo-se com o vento e (por que não?) o seu olhar perdido no horizonte além da sua janela. Mas é somente quando olho dentro dos olhos da Lua que enxergo os olhos do ser que me contempla, profundamente. Dentro de nós, então, forma-se um rio que corre nos dois sentidos, carregando para um e para outro nossos melhores sentimentos. Olho para a Lua e sinto-me escorrer de encontro a essa força até desaguar-me por completo no silêncio da noite ancestral. Imersos, saberíamos dizer em qual oceano? Em que olhar desaguamos?







O Rio da Lua 


Lavo meu peito em fogo líquido

Escorro soberbo
arrastando cascalhos
removendo entulhos

Sei que estou virando um rio


O vento sopra do extremo oásis
onde ninfas dançam entre flores raras

A campina verdejante exibe pérolas de orvalho

O sol


Imagino-me uma espécie de antúrio selvagem
porque pareço invisível


Sigo veloz alargando a margem
acumulando musgos
no movimento eterno de percorrer o caminho


Do outro lado do céu
rasgando o tecido escuro
a água escorre carregando estrelas em sua queda

estupenda

infinita

lavando o fogo em vida líquida.


(Diogo Borges)