14 de mai de 2011

Margaridinha

Boto fé na margaridinha. Perdão às rosas pela preferência desses meus olhos, mais tendentes ao simples, comum, corriqueiro. Embora eu aprecie a voluptuosidade sanguínea que tinge a pele delicada das rosas e tenha até certo gosto em ficar observando a penugensinha que recobre a superfície dessa cor tão viva, prefiro mesmo as cotidianas margaridinhas.
Diz aí, meu amigo, se você nunca ficou tentado  a colher uma dessas pequenas maravilhas do jardim alheio? Se ainda não fez, é bem possível que um dia faça e alardeie o fato contando em detalhes para os amigos de boteco as pequenas interjeições e nomes esdrúxulos que a sua criatividade seja capaz de criar. Digo isso por experiência própria.
Veja só o meu caso. Já tive um affaire por rosas. Durante muito tempo, tentei imortalizar a beleza aveludada, erudita, que habita o botão em flor. Fui um tolo por agasalhar esperanças a cada olhar perscrutante e sedento do belo. Talvez, ainda hoje, estivesse morto ou agonizante não fosse bater o olho no borogodó inexplicável de uma margaridinha. Mas minha relação de amor por essa flor miúda só se completou quando tangenciei seu tronco delicado com meus dedos imberbes, quando senti seu corpo intumescido pelas palavras que sussurrei ao encostar meus lábios na sua pele branca.
Não tem jeito, amigo, só vai sentir o perfume quem arrancá-la do chão e levar pra dançar. Faço votos, a quem se atreva, que seja uma solta no campo – fato de certa forma raro –, sem antecedentes comprometedores ou cônjuges ciumentos. E nem pense que está acima de cair nas armadilhas infantis, mas, admita, magistralmente armadas por elas. Mesmo que você tenha lá o seu talento, largue de lado o orgulho, a prepotência, e fique esperto, fique esperto. Deixe esse negócio de troca-troca pros grandes, do calibre de um Sabino, Braga, Mendes Campos.
Boto fé, hermano, que você encontre, como eu encontrei, uma margaridinha solitária que corresponda o seu olhar desejante, e que você saiba eternizá-la na sua fragilidade cotidiana, nem que seja através dos esdrúxulos, mas deliciosos nomes que nos acometem; nomes que para os ouvidos alheios podem parecer libidinosos e traidores, mas que você saberá tratar-se de pequenos momentos vividos a dois, mesmo que capturados das vidas de outros, e eternizados, meu camarada, pela sua criatividade audaz. Pitanga preta, Chu, Zão, Foquinha, Zig, Borboleta, e tantos outros que porventura possam surgir desse inevitável encontro.     
Uma margaridinha, descomprometida, colhida ainda fresca de manhã, cheirando a orvalho, é como disse o Poetinha: “...como o cafezinho quente seguido de um bom cigarro, que tanto prazer dão depois que se come.” Se você não fuma – eu mesmo não fumo – ou não é chegado a um café fumegante, imagine para si próprio a analogia, mesmo que emprestada de outros. O importante é saber apreciar a grandeza pulsante nos pequenos acontecimentos da vida cotidiana.


CRÔNICA SELECIONADA PARA ANTOLOGIA DO 1° CONCURSO ESCRIBA DE CRÔNICAS.

4 comentários:

ANIMAÇÕES disse...

Uhuuuu...
mandou ver, curta mesmo a margaridinha.. hehehehee
eu daqui fico com acacias e hortências...

Abração Diogão.. depois vai no animamundi e vota no meu crta hein??

Dayse Amaral Dias disse...

Margaridinha daqui derretida de amor e encantamento...coisa mais linda !!

claudia disse...

Lindo de se ver, ler e sentir.Que bom perceber a sensibilidade e o amor que tão lindamente se mostram escancarados no que vc escreveu. Amei!!!!!!!!!!!!!bjo.

TEREZA CRISTINA disse...

Huummmmm, acho que conheço essa Margaridinha...rs
Que lindo, Diogo!Vc é um grande poeta! Deus te abençoe por tanto talento!