12 de jan de 2012

Caixas

      Caixas não mentem. Nem mesmo quando estão lacradas esperando o caminhão da mudança. Empilhadas num canto do quarto ou no meio da sala, remendadas com fita adesiva, rabiscadas com o inútil “frágil”, guardam em seu conteúdo as melhores e piores coisas de uma vida. 
      As minhas caixas não mentem. Estão agora diante dos meus olhos irritados pela poeira, olhando-me mais do que eu a elas. Sabem da minha intimidade devassa e inconfessa. São as guardiãs transitórias dos meus dias esquecidos num pedaço de papel, num chaveiro quebrado, numa foto amarelada. Tenho a impressão de que, se tivessem língua, ficariam em silêncio. Dizer o quê?
      Tentei poupar-lhes evitando enchê-las com coisas inúteis, mesmo sendo eu tão apegado –  sou assim desde muleque, vejo sentido em certas coisas, a maioria miúda, feia, brega, esquisita. Acho que consegui um pequeno milagre nesse caso. Só de papel botei fora uns três quilos, sem contar as agendas antigas e os ímãs de geladeira, que considero papel. E as chaves? Uma verdadeira coleção! Pensei até em fazer um instrumento musical com elas, pra passar o tempo num momento de tédio, mas pensei nos vizinhos e adeus chaves.
      Conheço gente que prefere sacos de lixo, daqueles pretos, enormes. Dizem que são resistentes. Pode ser, mas eu ainda prefiro caixas. Não conseguiria dormir tranquilo sabendo que meu primeiro cachorro ou o troféu do meu primeiro porre estão sufocados em sacos de lixo. Imagina a primeira vez que acampei sem meus pais trancafiada em paredes escuras que podem se romper ao menor contato com uma quina de móvel! Mesmo os meus términos de namoro merecem serem guardados com mais consideração, zelo, como se fossem santos em seus altares. Sei bem onde ponho minha fé.
      A única coisa ruim, embora não passe de um incômodo ligeiro, um pequeno sacolejo, é a incerteza do que vai acontecer quando elas forem abertas. Sei que elas não vão reclamar quando eu passar o estilete em suas entranhas mais do que remendadas, com toda a minha habilidade, mas é sempre um risco enorme. Sem drama, ok, já passamos por isso, somos adultos, a vida é assim mesmo etc., no entanto, a incerteza continua na mente, nebulosa, em 3x4, quase como um medo bobo de criança, lá no fundo, estacionada. E se ela gritar quando eu abrir? E se eu não reconhecer a minha própria vida ali dentro? Postais, bilhetes, um brinquedinho da primeira infância escondido de todos e que, meu deus, de quem são? Meus? Sou eu nessa foto? E quem são eles, quem é ela? Por que eles não estão mais aqui? 
      Claro que depois de um instante você se lembra, você olha no fundo de todas as coisas e encontra o sentido, e com a lembrança vem a memória dos cheiros, paladares, dores, alegrias, afetos, paixões, prazeres, arrependimentos, mágoas, tristezas, angústias, amores, ilusões, encontros, desencontros, esperanças, planos, sonhos. Você olha suas caixas em silêncio e se lembra que elas nunca mentem.

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