23 de mar de 2012

O super-herói

     Ando exagerando na leitura. Desconfio até que já entrei no estágio da dependência, do vício. Não chega a ser uma certeza, porque ainda como e durmo, mas já não há mais vontade de ambos. Ontem, por exemplo, numa rápida pausa, pedi que pedissem a comida para que pudesse continuar com a minha leitura e quando a comida chegou não comi! Ignorei a carne para devorar a conjunção, o substantivo, as metáforas, o texto. O pior é que depois não senti qualquer vontade de mordiscar um pão. Estava satisfeito, cheio, empanturrado como ficam esses que frequentam rodízios. 
     O caso é sério: tenho acordado com Nietzsche. Quem, meu deus do céu, acorda e vai ler Nietzsche?! Tomo banho pensando em Cecília, Clarice, Adélia, Marina, Simone, Virgínia, Piñon. Engulo uma torrada, derrubo um café pelando pela garganta, e já estou na companhia dos ilustres Homero, Dostoiévski, Camões, Shakespeare, Becket, Calvino, Rilke, Mallarmé, Barthes, Gular, Drummond e demais senhores. Até Cervantes já me atrevi a ler antes mesmo de vestir os sapatos. Como se não bastassem as manhãs, passo as tardes, as noites - e agora as madrugadas - com o corpo e a alma grudados no que essa gente solitária (termo da minha vó) escreveu. Os poetas são as leituras preferidas, mas estão perdendo terreno para os teóricos, principalmente os filósofos. Pra se ver o nível a que cheguei. 
     A essa altura imagino o que estão a pensar - percebem o que digo? Pessoa já tomou conta de minha pena tamanha a intimidade que cultivamos. Pensam: de quê reclama, se dessa fonte deve-se mesmo beber?! Quanto mais melhor! Está é querendo enaltecer a própria inteligência. Vaidoso! Toma do próprio veneno: vai, poeta, definha-te diante das palavras, torna-te nosso super-herói das letras! Avante! Confessem que pensam assim! Confessem! Tenham culhões em admitir que é isso que têm na cabeça, hã?! Sabem da vontade de ser extraordinário, fora do comum, e disso tiram partido. Aposto que têm agora aquele sorrisinho irônico no canto da boca, hã, sorrisinho de Sade, que combina o desdém incrédulo pela minha honesta confissão com a complacência paternal pelo meu pobre português! Bandidos! Todos vocês! O que me consola é saber que vocês também sofrem, que padecem do mesmo mal. Pois se querem mesmo ser algum tipo de super-herói, se querem ser mais do que números, estatísticas, produtos, que sofram, mas não me venham criticar o desabafo. Leio e sofro. Pronto! 
    Poderia aproveitar esse momento e citar alguma frase, trecho de livro, verso, daqueles de fazer estremecer estruturas, pra continuar o raciocínio com que comecei este desabafo, quase manifesto, afinal agora posso me dar ao luxo de citar outros, dada a minha cultura em formação, mas não vou me dar a esse trabalho. Gostaria mesmo de continuar a dizer o que comecei, mas o que pensaram não me traz outra alternativa a não ser esta. Além do mais, estou cansado e preciso terminar o capítulo do Joyce antes de começar o Caetano que baixei pela internet (Nem acredito que consegui!), e depois, finalmente, dormir um pouco. 
     Amanhã o Sr. Friedrich chega cedo. Fim. 

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