22 de out de 2012



Trecho do conto "O homem-aranha" que faz parte do meu livro de contos 'O beijo atrás do poste' (lançamento em 2013).


     Eles capturam a paisagem esperando uma tragédia, pensava. Vejam: com suas lentes, mesmo separados, formam um bloco luminoso e barulhento, andaluz – porque é isso o que fazem ao andarem conforme o balé da luz e da sombra, mas é mentira dizer que procuram a beleza dos matizes. Às vezes, precisam espantar o sol para ver inutensílios (objetos de sangue como florezinhas e musgos). Estão sempre à espreita, em eterno estado de alerta – são gatos prestes a disparar ao menor sinal de vida, e hoje terão seu espetáculo.
      Pois olhem: o rato!
     Estava sentado quando a menininha subiu no muro e foi escalando o alambrado; sentado ainda quando o vestidinho rosa se prendeu numa ponta de arame e ela ficou pendurada; quase em pé no momento em que o vestidinho começou a rasgar, o objeto de sangue perdeu sua cor e o bloco luminoso foi se formando diante da cena; completamente em pé quando a menininha caiu no fosso dos jacarés. Parado, em suspensão, ouvia o desespero da mãe, do pai, do irmão, dos avós, familiares distantes, ancestrais esquecidos, cachorro de estimação guardando a casa. 
     Absurdamente, sentiu-se em movimento: pés mal tocando o chão, olhos procurando uma brecha no meio do empurra-empurra das câmeras, pernas correndo sem freio, em esperta velocidade, como o menino que enfim cria coragem e corre para furar a onda, coração desgarrado antes do choque na água gelada. Imaginou-se batendo contra o muro espesso de curiosos, abrindo caminho com a força das garras, alargando espaços, derrubando a câmera de um, fazendo a de outro tremer, atrapalhando as imagens, invadindo o mundo com fúria espetacular.

     (...) 

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